
Por Mariana Baima
Acompanhar a missão empresarial do Inaitec, nosso cliente, ao Vale do Silício foi como abrir uma janela para entender, na prática, para onde o mundo dos negócios está caminhando.
A cada encontro, a sensação era a mesma: a inteligência artificial virou o motor de tudo.
No TechCrunch, por exemplo, praticamente todas as startups apresentavam algum uso de IA, fosse como produto, fosse como base da operação. Nada surpreendente, claro, mas impressiona ver isso de tão perto.
Só que o entusiasmo tecnológico não esconde as conversas paralelas. Ética, privacidade, empregabilidade e uso responsável dos dados apareceram em quase todas as trocas que tive por lá.
E basta acompanhar o MIT Technology Review ou Stanford HAI para perceber que essas preocupações moldam decisões de investimento, projetos e parcerias.
A missão teve como foco entender como as empresas catarinenses podem entrar no mercado norte-americano. Isso exige compreender pessoas, mercados, tecnologias e expectativas. E foi exatamente isso que procurei agregar nesses insights que compartilho aqui .
Quando a conversa muda, a estratégia muda
A consultora Linda Stevens trouxe em sua fala um guia muito objetivo sobre como entrar em um mercado altamente competitivo. A frase que ficou ecoando foi simples: “pessoas compram de quem confiam”.
Nos Estados Unidos, essa confiança passa muito pela presença profissional. O LinkedIn, nesse contexto, funciona quase como um cartão de visita vivo.
E isso não é opinião solta: a Edelman Trust Barometer, pesquisa global anual da empresa de comunicação Edelman que mede a confiança da população em quatro instituições principais: negócios (empresas), governos, mídia e ONGs, mostra como a confiança em especialistas, executivos e lideranças influencia processos de decisão no B2B.
Linda pontuou algumas lições:
Valide, não presuma: o sucesso no Brasil é uma pista, não uma conclusão. Converse com clientes dos EUA agora.
Nicho para vencer: encontre um mercado inicial pequeno e possível de conquistar.
Invista em prova: seu primeiro objetivo não é gerar receita, e sim construir um estudo de caso nos EUA. Isso é a chave para destravar o mercado.
Comunique: agende uma conversa com um possível cliente dos EUA ou especialista no seu ICP.
Cultura pesa, e muito
Outra fala que me marcou foi a de Nir Rikovitch, executivo e especialista em gestão e estratégia de produto, com mais de 15 anos de experiência. Ele fez um panorama das diferenças culturais entre países e como isso impacta as negociações.
Comunicação direta, pontualidade rigorosa e expectativa por clareza são aspectos da cultura de negócios norte-americana que precisam entrar no radar de qualquer empresa que mire aquele mercado.
O varejo nos EUA já está alguns passos à frente
A apresentação do executivo da Bauducco, Fernando Alves, trouxe dados curiosos sobre varejo e foodservice. Um deles mexe com qualquer pessoa que trabalha com comunicação ou marketing:
O mercado de Retail Media já movimenta cerca de 70 bilhões de dólares por ano e deve ultrapassar 100 bilhões em pouco tempo. É o ponto de venda funcionando também como mídia, com telas que mudam a mensagem conforme o perfil de cada consumidor.
Além disso, etiquetas digitais com RFID e sistemas de precificação dinâmica já fazem parte do cotidiano. IoT, automação e IA aparecem em todo o processo, do sortimento ao conteúdo.
A hipersegmentação já é realidade com o uso de inteligência artificial, que orienta desde o sortimento até a comunicação personalizada.
Dados sobre a Califórnia
A visita ao escritório da Apex Brasil em São Francisco trouxe um panorama útil para qualquer empresa que cogita entrar na Califórnia. O estado cresce em torno de 4,5 por cento ao ano, concentra 15 por cento do venture capital mundial, é o maior mercado de produtos orgânicos e tem um custo de trabalho significativamente mais alto que a média americana.
Essas informações ajudam a responder perguntas importantes:Como se preparar para competir em um ambiente de alto custo, mas altíssima densidade de inovação?
Growth para escutar
Especialista em growth, Khaled Alameldin falou sobre erros comuns de empresas em expansão: ir ao mercado antes de pivotar, falar mais do que ouvir.
Foi uma conversa direta e muito coerente com os ensinamentos de growth que acompanhamos. Ele também compartilhou estratégias que usa no dia a dia: eventos para atrair comunidade, newsletters consistentes, landing pages bem testadas, conteúdo de autoridade e mensagens realmente personalizadas.
A frase que resume a visão dele é que clientes não te devem atenção. É você que precisa conquistá-la.
Reputação continua importando
O jornalista e estrategista de marketing Jeffrey Goldsmith trouxe um ponto que dialoga totalmente com o que acreditamos na Primeira Via: a assessoria de imprensa continua sendo uma das formas mais eficientes de construir reputação, principalmente para empresas que buscam investimento. E por outro lado, empresas que obtêm investimentos são atrativas para a mídia.
E, de novo, destacou em sua fala o LinkedIn como espaço para transformar a visibilidade em relacionamento.
Simplicidade como estratégia: o recado de Gui Ferreira, da Atomsix
A Atomsix foi uma das parceiras estratégicas na condução da missão e a fala do Gui Ferreira trouxe um contraste interessante em meio a tantas discussões sobre IA, validação e expansão internacional. Ele apresentou sua trajetória, que começou no design e o levou a atender empresas como Amazon, Google, Samsung, Microsoft e Mercedes-Benz, e mostrou que crescer para 21 países e ultrapassar 36 milhões de faturamento anual veio de uma lógica simples: resolver um problema real, de verdade, melhor do que qualquer outro.
Ele também insistiu em algo que conversou diretamente com tudo o que vimos no Vale, que simplicidade não tem nada a ver com fazer menos, mas com fazer o que importa.
Funcionalidade clara, propósito bem definido e execução cuidadosa valem mais do que dezenas de recursos que ninguém usa. Para quem trabalha com posicionamento e narrativa, como nós na comunicação, isso é quase um lembrete metodológico. Se a mensagem não for clara, o valor do produto também não será.
O que ficou para mim depois de tudo isso
As conversas no Vale mostraram que validar cedo, traduzir bem a proposta de valor, ajustar a narrativa ao contexto cultural e construir relações de confiança são movimentos que determinam se uma empresa será ou não levada a sério lá fora.
Se existe uma síntese dessa viagem, é que a internacionalização é uma estratégia que exige planejamento assertivo. Mas comunicar bem é o que sustenta cada passo, da primeira conversa ao primeiro cliente.



